O futuro da indústria metalmecânica do Sul catarinense passa por uma palavra que ganhou diferentes significados durante o encontro realizado nessa segunda-feira (24/8), no Centro de Inovação Criciúma (CRIO). A transformação esteve no centro das discussões, não apenas sob a perspectiva tecnológica, mas também na mudança de processos, na qualificação das pessoas, na integração entre empresas, na aproximação com a Universidade e, principalmente, na capacidade de transformar desafios em oportunidades.
Foi com essa perspectiva que a Unesc apresentou os resultados do diagnóstico estratégico do setor metalmecânico, desenvolvido por meio do InovaSul: Transformando Setores. A iniciativa reuniu informações econômicas e sociais, pesquisas qualitativas e quantitativas e, principalmente, a percepção de quem vive diariamente os desafios da indústria.
O encontro marcou uma nova etapa do trabalho desenvolvido pela equipe da Agência de Desenvolvimento, Inovação e Transferência de Tecnologia (Aditt) e do Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e de Inovação da Unesc.
A proposta, além de apresentar números, também entregou ao setor uma espécie de Vitrine de Oportunidades, um conjunto de diretrizes para ajudar empresários e instituições a transformar as necessidades identificadas em ações concretas.
“Buscamos identificar tendências econômicas emergentes capazes de promover inovação, competitividade e desenvolvimento sustentável. A informação é matéria-prima essencial para decisões estratégicas, permitindo que cada empreendedor, gestor ou instituição planeje e inove em produtos, processos e novos negócios”, destacou a gerente de Inovação da Unesc, Elenice Engel.
Um diagnóstico construído com quem está no setor
O trabalho começou muito antes da apresentação dessa segunda-feira. A metodologia do InovaSul parte da análise de dados secundários, obtidos em diferentes bases e pesquisas, para construir uma leitura inicial dos cenários internacional, nacional e regional.
Na sequência, representantes do setor participaram de mesas de trabalho e de uma escuta qualitativa. Foi nesse momento que empresários e profissionais puderam apresentar suas dores, projetos, necessidades e expectativas para os próximos anos.
Depois da escuta, a equipe técnica do observatório voltou ao laboratório para analisar as informações coletadas, cruzar percepções e dados e, a partir desse conjunto, construir as diretrizes apresentadas agora.
O resultado é um diagnóstico que procura olhar para a indústria pelo que ela representa atualmente, mas também pelo que pode se tornar.
“Vocês estiveram conosco discutindo em mesas de trabalho. Foi uma escuta qualitativa, a partir da fala de vocês, para que nós também conhecêssemos aquilo que passa nas mesas das empresas. A partir disso, nossos cientistas de dados trabalharam em laboratório, fizeram a análise desse material e hoje trazem as diretrizes e essa Vitrine de Oportunidades”, explicou Elenice.
Três caminhos para uma indústria mais competitiva
A análise apresentada pelo coordenador do Observatório, professor doutor Afonso Valau de Lima Junior, foi organizada em eixos considerados fundamentais para o futuro do setor.
O primeiro está relacionado à produtividade, tecnologia e modernização industrial. A proposta é implementar programas que estimulem a modernização dos processos produtivos e a transformação tecnológica das empresas.
A ordem das palavras não é por acaso. A produtividade aparece antes da tecnologia porque, conforme explicou Afonso, a tecnologia precisa ser entendida como ferramenta para alcançar melhores resultados. “A tecnologia não é um fim. Ela é um meio para potencializar a produtividade, melhorar processos e ampliar a competitividade das empresas”, destacou. o à competitividade, integração produtiva e ampliação de mercado. A ideia é aproximar empresas, fornecedores e instituições, fortalecer a cooperação dentro da cadeia produtiva e ampliar a presença das empresas em novos mercados.
O terceiro ponto envolve justamente a construção de condições para que essa integração aconteça de maneira estruturada, com governança setorial, definição de prioridades e planos de ação.
Entre os próximos passos apontados estão construir uma governança para o setor, definir prioridades estratégicas, desenvolver planos de ação, fomentar parcerias, fortalecer a cooperação e a cadeia regional e ampliar mercados e a inserção internacional.
O desafio de atrair e preparar novas gerações
Se máquinas, processos e tecnologias aparecem entre os temas centrais para o futuro da indústria, as pessoas também ocupam lugar de destaque.
Durante a escuta, os representantes do setor chamaram atenção para uma questão que, segundo Afonso, apareceu de forma particular entre os participantes: o desafio geracional.
Além da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, existe a preocupação com a capacidade de atrair e manter uma nova geração de profissionais na indústria. “Precisamos avançar na qualificação, mas também na capacidade de atrair e reter novos profissionais. Para isso, é fundamental termos um setor cada vez mais competitivo, moderno e atrativo para as novas gerações”, pontuou Afonso.
A questão dialoga diretamente com outro desafio identificado pelo InovaSul, ou seja, tornar a indústria mais atrativa, inovadora e preparada para as mudanças do mundo do trabalho.
Inovação vai muito além da tecnologia
Para Elenice, falar em inovação significa ampliar o olhar. Uma empresa pode inovar em sua tecnologia, mas também pode transformar processos, modelos de gestão, relações com clientes, produtos e formas de trabalhar.
“A aproximação entre Universidade e empresas aparece, nesse cenário, como uma das possibilidades para acelerar esse processo”, disse Elenice.
Ela citou como exemplo experiências desenvolvidas pela Unesc em desafios de inovação, nas quais estudantes são provocados a encontrar soluções para problemas reais e, a partir dessas ideias, podem surgir novos negócios.
A lógica também pode ser aplicada ao setor metalmecânico. Desafios enfrentados pelas empresas podem se transformar em oportunidades para startups, grupos de pesquisa, estudantes e empreendedores desenvolverem soluções.
“Às vezes, um problema que a empresa enfrenta pode ser o ponto de partida para inovar e transformar uma dificuldade em uma grande oportunidade. Hoje, temos startups aqui justamente para conversar com vocês, pensar em inovação, novos negócios e soluções para essas demandas”, explicou Elenice.
Sustentabilidade como estratégia
Outro aspecto presente no diagnóstico é a sustentabilidade, entendida de forma ampla. Para a Unesc, ela não se limita à dimensão ambiental, mas envolve também sustentabilidade econômica, financeira e social.
A produção mais limpa, a gestão de resíduos e a eficiência dos processos estão entre os pontos que podem contribuir para que a sustentabilidade deixe de ser vista apenas como obrigação e passe a integrar a estratégia dos negócios.
A proposta é que a indústria consiga transformar desafios operacionais em oportunidades de melhoria, eficiência e geração de valor.
Um setor que movimenta toda uma cadeia
A relevância da indústria metalmecânica ultrapassa os limites das fábricas. O segmento possui forte participação no desenvolvimento socioeconômico da Amrec e da Amesc, gera empregos qualificados, movimenta fornecedores e mantém relações com áreas como construção civil, energia, transporte e agronegócio.
Municípios como Criciúma, Içara e Nova Veneza concentram empresas consolidadas do setor, que também ampliam sua presença em mercados nacionais e internacionais.
É justamente essa dimensão regional que faz com que a integração seja considerada estratégica.
Um dos dados apresentados durante o encontro chamou atenção para a necessidade de ampliar os mecanismos de cooperação. Para Afonso, a construção de ambientes colaborativos pode fazer com que empresas e instituições avancem juntas.
Empresários diante dos desafios do presente
O presidente do Sindimetal, Aloir Librelato, destacou que os empresários que participaram da construção do diagnóstico tiveram a oportunidade de apresentar suas necessidades e projetos durante a etapa de escuta.
O cenário, reconheceu, é de desafios. Pensar no futuro em períodos de crise pode ser difícil, mas, para ele, desistir não é uma alternativa.
Librelato ressaltou a necessidade de manter a capacidade de adaptação e de tomar decisões com coragem, mas também de maneira calculada.
Entre os desafios levantados pelos empresários esteve novamente a mão de obra. A região enfrenta dificuldades para atrair profissionais, especialmente em um cenário no qual a movimentação de trabalhadores entre diferentes localidades impacta diretamente a disponibilidade de pessoas para as empresas.
O diagnóstico surge, assim, como uma oportunidade para transformar essas dificuldades em uma agenda estruturada de ações.
Da indústria para o ecossistema de inovação
A apresentação não ficou restrita ao diagnóstico. Depois da exposição das diretrizes, o público conheceu cases de empresas e startups que já estão transformando ideias em soluções.
Um deles foi apresentado pelo engenheiro Joacirton Rosso, da Synter. A empresa começou sua trajetória em Forquilhinha e passou por um processo de desenvolvimento que também se conecta ao ambiente de inovação.
A experiência mostrou como o empreendedorismo pode nascer de necessidades concretas e se desenvolver a partir da persistência, criatividade e capacidade de identificar oportunidades.
Outro exemplo veio da Redrive, representada por Wesley Schefer, coordenador de desenvolvimento de produtos tecnológicos. A empresa apresentou uma plataforma voltada para quem deseja prospectar, vender e engajar, utilizando a comunicação automatizada pelo WhatsApp.
A solução parte de uma percepção direta do mercado: comunicação e vendas estão cada vez mais conectadas.
“A comunicação é o combustível da venda”, destacou Wesley, ao apresentar a ferramenta e os resultados que ela pode proporcionar para empresas que buscam melhorar sua comunicação com clientes.
Gestão ambiental como oportunidade
O encontro também trouxe o case da e-Licencie, apresentado pelo engenheiro ambiental Luiz Henrique Rosa da Silva.
A empresa trabalha com gestão ambiental estratégica, propondo uma mudança na forma como as organizações encaram questões ambientais. Em vez de tratar a gestão ambiental apenas como custo operacional, a proposta é utilizá-la como ferramenta para gerar receita, melhorar processos e contribuir para a blindagem jurídica das empresas. As duas startups estão instaladas no CRIO.
O encontro também apresentou iniciativas do ecossistema de inovação da Unesc, entre elas o Unesc Labs e projetos desenvolvidos no Parque Científico e Tecnológico (Iparque).
Um projeto que olha para diferentes setores
O trabalho realizado com a indústria metalmecânica faz parte de uma agenda maior do InovaSul: Transformando Setores, projeto pioneiro da Unesc, desenvolvido pelo Observatório de Desenvolvimento Socioeconômico e de Inovação e pela Aditt, com fomento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A iniciativa é dedicada ao fortalecimento socioeconômico das regiões e busca aproximar setores produtivos, academia e instituições para construir um ecossistema inovador, com crescimento econômico e social associado à sustentabilidade.
Informações e Fotos: Daniela Savi/Agecom/Unesc
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